sexta-feira, junho 08, 2007

Ocupado


Não há leitos e a maca é fria. Minha camisa... Involuntariamente faz o gesto de quem quer fechar uma camisa de botões. Todos de branco andam rápido, exceto o cara que conversa com a moça encostado no balcão. Ele parece à vontade e conta uma piada qualquer. A moça sorri, tem um coque no cabelo e olhos claros. Um anjo talvez... Lábios secos, sede. No frio também se tem sede... A mão na barriga está úmida. Mas sangue não mata sede. Era verde-clara a camisa de botões que ganhara da filha caçula. Tinha feito 57 anos no domingo. Hoje era domingo também. Não entende como as coisas são tão rápidas. O mundo no passado parece mais lento... Lembra que a cachaça amargou no primeiro gole. Sempre é assim: a cana amarga até anestesiar a garganta. Depois parece água. Desce rápido e você fica lento no mundo apressado. As costas estão frias também, adormeceram na maca. Tanto melhor, quando se faz parte do frio, o frio é menos gelado. Gelo... Movimento brusco, alguém fala rápido - seqüências de palavras; procedimentos médicos de emergência necessitam palavras rápidas - empurra a maca e ele se move deitado; esquisito se mover deitado. O mundo parece de ponta cabeça, um mundo de cabeça pra baixo, mas ainda apressado. A porta! Achou que bateria, mas não. Ainda vê a porta balançando. Eram portinholas brancas, sem trinco nem fechadura. Dói quando o mudam de lugar. Há luzes, muitas luzes e um cara de máscara. O golpe foi certeiro, inesperado e rápido. Ele estava lento, à vontade - contava piada, bebia cana que nem água - e sorria, mas não havia moças de olhos claros. Não entendera exatamente o motivo. Algo sobre o time de futebol do coração e o jogo com o rival e a piada que contava. Era um menino, meu Deus. Uma criança com faca na mão! Ainda ouviu o grito da filha. Viera chamá-lo pro almoço. Não gostava da filha em bar, mesmo que fosse o bar da esquina de casa. Ia chamar sua atenção, mas o golpe certeiro, preciso e rápido... oportuno. Apagou.

Edward, um amigo visitante

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